Cruz das Almas e o São João 2022 - Alex de Jesus Oliveira

Na virada do dia 31 de maio para 1 e junho Cruz das Almas-BA se transforma. A dinâmica emocional das pessoas se reprograma. E não se trata apenas porque o consumo de álcool aumenta, mas a razão se encontra no sentimento de pertencimento ao lugar onde acontece a maior festa junina da Bahia.  Trata-se, portanto, do compartilhar de valores em um território culturalmente construído por ancestrais africanos, Indígenas e portugueses em uma forte transitoriedade de elementos culturais que se completam, se “fundem” e coexistem. 

Um exemplo dessa simbiose cultural é a música; o tambor é africano configurado na Zabumba que faz o ritmo do forró para o Acordeon brilhar com o swing do Triângulo. A polga  ( ritmo frenético alemão) torna-se o galope, o fado acelerado é o xote, e o baião é a mistura dos dois. As danças com forte influência das culturais ritualística indígenas. O "túnel do forró", as saudações das quadrilhas resultam da alegria genuína dos humanos quando se realizam culturalmente.

Cruz das Almas-BA é o lugar por excelência dessa fusão e/ou simbiose de encontro cultural no tempo-espaço. É evidente que isso não resultou de um encontro pacífico. As tensões do passado no domínio das terras indígenas e da escravidão foram marcantes, mas não impediram que as culturas tanto do dominador quanto do dominado se relacionassem como bem explica o historiador italiano Carlo Ginzburg. A cultura é sempre circular e gerada em conflitos e tensões que envolvem disputas, pressões e relações de poder.  Essas tensões, por exemplo, se apresentam no presente nas disputas pela queima da Espada, pelo “domínio da Rua”, pela condução de uma tradição que para alguns é violenta e bárbara, para outros é a relação mais genuína e “amigável” possível do ser humano com o fogo. É o espetáculo magistral de uma cultura secular com suas “artes de fazer” bem definidas.

Que pese os conflitos em torno dessa tradição espetacular da queima de espadas e a desconsideração do seu valor cultural por grande parte das autoridades, não se pode negar que o espadeiro, também, por vezes exagera, seja pelo caminhar próximo ao “perigo” e na construção do seu artefato que, realmente faz “vítimas de queima” e mesmo raros óbitos considerando o poder da espada. Entretanto, ressalta-se que, quase sempre “as vítimas” são amantes da espada que não respeitam as “normas” de segurança do “tocador”. Não usam os EPI`s do espadeiro e acabam sendo alvo da “errante espadada de fogo.” O que não se pode negar é que sem as espadas o São João fica mais pobre culturalmente a cada ano, tornando-se dependente, exclusivamente, de atrações musicais nacionalmente reconhecidas que se apresentam no arraiá.

Para além das espadas, Cruz da Almas-BA se transforma completamente no mês de junho, conforme dito. As ruas são enfeitadas, as fogueiras são colocadas nas ruas. Há quem faça varias fogueiras durante todo mês. O comércio se agita. Vende-se tudo; comida, roupas, sapatos, chapéus e etc. Queijos, carne, licor, cerveja são consumidos desenfreadamente. As pessoas tornam-se solicita e as diferenças políticas são quase totalmente suplantadas. A cidade concebe o que é alegria. O povo espera o apogeu dos festejos com ensaios em bares, em festas particulares, em rodas de amigos na praça, nos sítios. É algo fora do comum. Os motéis e hotéis da cidade enchem de pessoas para namorar e os “filhos de junho” nascem em fevereiro e/ou março.

Dois anos sem a festa junina e esse ano de 2022 foi literalmente “barril”, foi o "larga-se" a própria sorte após o forte massacre do Covid 19. Tudo em dobro na festa. Um espaço novo foi construído; a Cidade da Música. Uma festa memorável e digna da cultura musical da cidade foi realizada. Bandas de grande porte se sucederam na festa. Shows memoráveis com público imenso dançavam e cantavam a cada atração. Ao redor dos dois mega palcos montados os vendedores de bebidas e comidas típicas faturavam. A cidade tornou-se o centro da Bahia. As passagens foram esgotadas para Cruz das Almas-BA. A BR 101 ficou engarrafada. Parecia que a Capital queria torna-se Cruz das Almas. O Espaço comportou a pressão da multidão. A segurança digital funcionou perfeitamente e não houve nenhuma ocorrência violenta. A PM sob o comando do Major Messias deu um show de segurança. Os bombeiros sempre à pronto emprego estiveram dando a atenção necessária. A polícia Civil realizou a sua função com perfeição predendo marginais foragidos que se deslocavam dentro da festa.

A festa foi um sucesso. Aplaudida por jornalistas e mesmo pela oposição política. O trabalho foi bem feito. É claro que os custos foram altos, mas o legado é maior, bem maior que a política e as disputas pelo poder local. Cruz das Almas-BA consolida-se como a cidade do FORRÓ na Bahia. O Prefeito Ednaldo Ribeiro está de parabéns pela festa memorável que teve como auge os shows de Bell Marques e Amado Batista. Os foliões foram ao êxtase cantando e dançando os Hits dos músicos consagrados.

Cruz das Almas-BA é a "terra encantada da música nordestina" cantada pelos seus compositores e poetas amantes do forró. É a princesa do Planalto. Cidade Universitária que tem doutores em todo canto da cidade. É a URBS com o maior nível cultural da Bahia. Berço da Agronomia não só da Bahia,mas do Brasil. Na contemporaneidade torna-se o centro cultural do Recôncavo com inúmeras bandas de forró, cursos de dança de ritmos nordestino, de fabricantes de licor, de fogueteiros, espadeiros e músicos como; bateristas, zabumbeiros, triangueiros, percussionistas, baixistas, guitarristas, tecladistas, e cantores como; Pedrinho, Bruno Silva, Carol e Murilo, Paulinha, Chico Almeida, Meyre Kal, Jota Silveira, Forrozão Flor de cactos, Raissa, Caroline Canto, João, João Jr. Junior Rasga tanga, Laços do Forró, Felipe Ramos, Sinhá Menina, Chico Almeida, Forrozão de Gente Grande, Forró Gente da Gente, Forró Azabela, Forró do Salomão, Ariela, Max Williams, Robertinho Lago, Forró Metal, Euterpe Cruzalmense e tantos outros cantores e bandas que se apresentaram nos palcos da cidade.

A festa junina em Cruz das Almas-BA só tende a crescer e se expandir. É um “motor” cultural do Recôncavo no mês de junho que deve ganhar espaço o ano inteiro.  Um time business ( tempo de negócios) que impulsiona a economia e a cultura do forró da região. Espera-se que tenhamos o Museu do Forró, o Museu do Fumo e a Feira Permanente da Cultura Nordestina. Acreditamos que a festa quando bem gestada suplanta elementos políticos e pode consolidar-se como um patrimônio cultural da Bahia, do Nordeste e do Brasil. Lembrando que o que foi bom sempre pode melhorar.

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